abril 28, 2005 |
M E M O R E X
Criança, eu deitava pela janela,
sobre os vizinhos do rés-do-chão.
Papéis higiénicos após limpar o cu.
Adulto, a diferença não será grande se
é a vontade do artista em difulgar a sua merda.
PREFÁCIO
"Espero que os meus auditores compreendam que não sou um erudito nem um filósofo, mas, sim, um longo diálgo.
Publicado por bigsainete em 11:02 PM
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abril 29, 2005 |
PRE-PREFÁCIO
"Queria encontrar um crime cujo efeito perpétuo agisse quando eu próprio já não agir, de modo a não haver um único instante da minha vida em que, mesmo dormindo, eu não fosse a causa de uma qualquer desordem, e que esta desordem pudesse estender-se a ponto de arrastar consigo uma corrupção geral ou uma alteração tão formal que mesmo para lá da minha vida o efeito se prolongasse ainda."
Marquês Donatien-Alphonse de Sade
Publicado por bigsainete em 08:15 PM
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REALIDADE
Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
E as ovelhas baliam que linda está
a re a re a realidade.
Na noite era uma vez
uma realidade que sofria de insónia
Então chegava a madrinha fada
e realmente leva-a pela mão
a re a re a realidade.
No trono havia uma vez,
um velho rei que aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re realidade.
CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
Era uma vez a REALIDADE.
Publicado por bigsainete em 08:36 PM
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CRISES
"(...) Com a minha infância, se me permitem um depoimento formal, passa-se qualquer coisa de curioso, de ambíguo. Entro e saio nela quase sem dar por isso, às vezes mesmo não reparo ou não sei se estou para trás ou fiquei aqui agora. De dia sou menino, à noite velho caquético e o contrário disto também pode acontecer. às vezes demoro-me mais num dos extremos - são o que eu chamo as minhas crises. Outras, ainda, acumulo os tempos, crio-me uma infância lógica e paralela, ganha-me talvez pureza e fico-me a vê-la, ora maravilhado, ora irritado, ora assustado, com o olhar cheio de ronha do macróbio que já viu muito filho de muita mãe e de si próprio duvida mais do que todos e do que todos. A verdade é que ainda não me decidi por uma idade certa, continuada. Ou um tempo.(...)"
Publicado por bigsainete em 09:00 PM
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TERNURA
Cheguei a casa um pouco mais cedo que de costume. Tirei a ventoínha da cabeça, pus-me à vontade, fui ver se os mamutes estavam a fazer disparates e sentei-me na sala, no velho e confortável sofá que a tia Mizé nos oferecera pelo casamento.Querida tia tia Mizé! Preparei um gin.
Josela ainda não chegara. Estava atrasada, talvez as compras, quem sabe.
Foi quando ouvi abrir a porta. Fui ver. Josela chegava, empurrando o carrinho antigo que servira para o nosso filho agora com dezoito anos como sabem, e com um bom lugar de Viet qualquer coisa, lá não estou bem certo; lugar seguro e de futuro, foi o que me disseram. Bom rapaz, o nosso garoto.
Olhei o carrinho. Trazia um bebé dentro.
Josela sorria. Vi o preço. Razoável Do talho do senhor Esteves. Manias de Josela.
Olhei Josela.
Tinha os olhos brilhantes, havia uma ternura inesperada que a envolvia, numa tristeza distante nas mãos.
-Achas que podemos ficar com ele? -perguntou-me afirmando.
Concordei. Josela manda.
Arrumei o carrinho.
Era um bebé ainda em muito bom estado.
Durou cinco dias até apodrecer, calculem!
Publicado por bigsainete em 09:44 PM
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PERFIL REFLECTIDO N'UM ESPELHO QUEBRADO
Serei sério como o prazer.
As pessoas não sabem o que dizem. Não existe razão alguma para viver, mas também não existe uma para morrer. Só temos uma maneira de testumunhar o nosso desprezo pela vida: aceitá-la. A vida não vale o esforço de a deixarmos. Pode-se, por caridade, evitá-la aos outros, mas a si próprio? O desespero, a indiferença, as traições, a fidelidade, a solidão, a família, a liberdade, a carga, o dinheiro, a pobreza, o amor, a falta de amor, a sífilis, a saúde, o sono, a insónia, o desejo, a importância, a vulgaridade, a arte, a honestidade, a desonestidade, a mediocridade, a inteligência, não dão para mandar cantar um cego.
Sabemos muito bem de que são feitas todas estas coisas para lhe ligarmos qualquer importância: serão boas apenas para propagar alguns insgnificantes suicídios-acidentes.(Há sem dúvida o sofrimento físico. Eu estou perfeitamente bem; tanto pior para quem sofre do fígado. Gosto muito pouco das vítimas, mas não me meto com quem julga não poder suportar um cancro). E não é verdade, afinal, que o que te liberta, o que tira toda a possibilidade de sofrimento, é este revólver com que esta noite te matarás se te der para isso? A contrariedade e o desespero, de resto, não são mais do que novas razões para nos agarrarmos à vida.
É comodíssimo, o suicídio, não posso deixar de pensá-lo; demasiado cómodo: em ter comprometido; seria bom levarmos connosco a Notre-Dame, o amor ou República.
son ed setna somri son oãn mob aires: osromer mu atseR. iedicius em
Publicado por bigsainete em 10:41 PM
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abril 30, 2005 |
DELIRIUM
...Estou sujo. Os piolhos roe-me. Os porcos, quando me olham, vomitam. As crostas e as úlceras da lepra gretaram a minha pele, coberta de pus amarelento. Não conheço a água dos rios nem do orvalho das nuvens. Um cogumelo enorme, de pedúnculos umbelíferos cresce na minha nuca, como um monturo. Sentado num móvel informe, há quatro séculos que não movo os meus membros. Os meus pés criaram raízes no solo e formaram, até à altura do meu ventre, uma espécie de vegetação vivaz, povoada de ignóbeis parasitas, a qual ainda não faz parte da planta e, todavia, já não é carne. Apesar de tudo, o meu coração continua a bater. O que é extraordinário, espantoso, dado que a podridão e as exalações do cadáver ( não me atrevo a dizer do meu corpo ) não o alimentam suficientemente. Debaixo do meu sovaco esquerdo instalou-se uma família de sapos, e, quando um deles se move, faz-me cócegas. Cuidado, não vá escapar-se algum e pôr-se a raspar com a sua boca o interior do ouvido: haveria o perigo de ele se introduzir no cérebro. No meu sovaco direito há um camaleão que lhes faz caça implacável para evitar morrer de fome: todos têm de viver. Mas, quando um dos bandos se furta complectamente aos ardis do outro, não estão com meias medidas e põem-se a chupar tranquilamente a camada de gordura que cobre as minhas costas; já estou habituado. Uma víbora malvada devorou-me o sexo e instalou-se no seu lugar: tornou-me eunuco, infame. Oh, se eu tivesse podido defender-me com os meus braços paralisados, mas creio que eles já se transformaram em cepos. Seja como for, verifico com alívio que o sangue já não circula nas veias rubro e vivo. Dois pequenos ouriços, que deixaram de crescer, lançaram a um cão o interior dos meus testículos e este repasto não foi recusado; em seguida, lavaram cuidadosamente a epiderme e instalaram-se no interior dela. Quanto ao ânus, encontra-se obstruido por um caranguejo, que encorajado pela minha inércia, ocupa a entrada com as suas pinças, causando-me uma dor aguda. Duas alforrecas atravessaram os mares atraídas imediatamente por uma esperança que, na verdade, não iludiu. Contemplaram atentamente as duas partes carnosa que constituem o trazeiro humano e, aferrando-se à sua forma convexa, premindo-as constantemente, a tal ponto as achataram que os dois pedaços de carne desapareceram e ficaram dois monstros saídos do reino da viscosidade, iguais na cor, na forma e na crueldade. E não falemos na minha coluna vertebral, que não é mais que uma espada! Ah, sim... já não me recordava... a vossa pergunta é justa. Vocês querem saber como é que ela se encontra implantada verticalmente nos meus rins? Eu próprio não o sei dizer exactamente; no entanto, decidindo-me a considerar como uma recordação o que talvez não seja mais do que um sonho, saibam que o homem, quando soube que eu tinha feito o voto de viver na enfermidade e na mais completa imobilidade até ter vencido o Criador, se pôs a caminhar atrás de mim, nos bicos dos pés, mas não com tanto cuidado que não lhe destinguisse os passos. Não percebi mais nada, durante um instante e que não foi longo. Este punhal aguçado, enterrou-o até ao cabo entre os ombros do touro das festas e a sua ossatura estremeceu, como um abalo de terra. A lâmina aderiu ao corpo com tal força que ninguém até hoje pôde extraí-la. Os atletas, os mecânicos, os filósofos, os médicos experimentaram, um após outro, os mais variados meios. Eles não sabem que o mal que o homem fez já não pode ser desfeito!
Todos os meus dias são meses, hoje é Fevereiro
Publicado por bigsainete em 01:18 AM
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maio 01, 2005 |
Treixo d'uma opreta dos anos setenta
Andava o desenfeliz no gardanho
para sustentar os sete filhos esfaimados
coitadinhos, já choravam baba e ranho
e continuavam esganados
E foi nessa altura
em que a pobre alminha
teve o galo
de gamar uma galinha
no galinheiro do vizinho
e o dono ficou foleiro
Um polícia sinaleiro
por acaso paneleiro
estava à coca, e viu
que o galinácio não fugiu
Assoprou no apito
como uma corneta
e a motoreta deteve-se p'ro lado
ó sô guarda não fui eu
pode crer que não é treta
Naquele encontro
a galinha sumiu
trinchada entre os dois
numa farta patuscada
E ao chegar a casa, enche um tacho
que pôe ao lume tapado
atestado de batatas
e o desenfeliz; diz:
-Tenho aqui uma galinha.
E os sete filhos em coro, repelicam:
-Galinha? Mas nós só vemos batatas.
-Batatas! Vão gozar com a puta da vossa mãe, que ninguém está a falar com voçês.
E a mãe responde à letra
-Puta é a tua mãe, ó meu ordinário do caralho.
Fála mas é com termos que as crinças estão a ouvir.
Família tão destinta
como esta não se viu
vai o pai, mais a mãe
vão os filhos e a galinha
para a puta que os pariu.
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D'uma ténue memória esquecida no tempo
antes de quebrar os picotados
entrompecidos pelo malte
que se recusa a derreter
o gelo no copo alto
Publicado por bigsainete em 11:43 PM
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maio 02, 2005 |
O mais belo espectáculo de horror somos nós
Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o seu reino não fosse pertença delas. Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacavél. A nossa miséria vive entre as quatro paredes cada vez mais apertadas, do nossso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitaios no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída - a real, a única - e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que a ira, os que perdem o amor.
Publicado por bigsainete em 12:05 AM
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maio 04, 2005 |
Os anos felizes
A esta razão demasiado estreita e restritiva vão encontra-se opostos os modos de pensamento que ela despreza: a imaginação, que exede continuamente o que a razão pode tomar a cargo, mas que, presentemente, apenas se admite nas crianças, OS ANOS FELIZES
Eu tlim ciências
tu tlim matemáticas
ele tlim trabalhos manuais
nós tlim recreio
vós tlim senhora
eles tlim castigo
Publicado por bigsainete em 05:46 PM
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SENSIBILIDADE
Também a sensibilidade deve reivindicar os seus direitos, porque só ela pode tornar a dar à existência e ao que dela se diz algum interesse (" QUERO QUE SE CALEM, QUANDO SE DEIXA DE SENTIR ") e porque dá ao homem os meios de se evadir da monotonia do quotidiano.
Publicado por bigsainete em 05:51 PM
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Faço questão
De uma vez para sempre
para que fique bem entendido
e retido de uma vez para sempre,
eu renego o batismo
eu cuspo sobre cristo
tão pouco inato quão profundamente iníquo e reprovado,
eu adjecto o sinal obsceno e catastrófico da cruz.
Publicado por bigsainete em 06:06 PM
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maio 13, 2005 |
EXERTO
Detesto a filosofia, detesto a razão; e sinceramente creio que num mundo tão desconchado como este, numa sociedade tão falsa, numa vida tão absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniências dela, afectar nas palavras a exactidão, a lógica, a rectidão que não há nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoerências.
Almeida Garrett - " Viagens da minha terra "
Publicado por bigsainete em 04:31 PM
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maio 20, 2005 |
GIROSCÓPIO
No giz da escola existe uma máquina de cozer; as criancinhas sacodem os caracois de papel de prata. O céu é um quadro preto sinistramente apagado de minuto a minuto pelo vento. " Já sabem o que aconteceu aos lírios que não queriam dormir", começa o professor, e os pássaros fazem ouvir a sua voz um pouco antes da passagem do último comboio. A sala de aula está nos mais altos ramos do regresso, entre os verdelhões e as queimaduras. É um jardim-escola na plena acpção da palavra. O príncipe dos charcos, que tem o nome de Hugo, segura os remos do poente. Espreita a roda de mil raios que corta o vidro na campina e que as criancinhas, pelo menos as que têm olhos de cólquico, tão bem acolherão. O passatempo católico foi abandonado. Se o campanário voltar alguma vez aos grãos de milho, estarão acabadas as próprias fábricas e o fundo dos mares não se iluminará senão sob certas condições. As crianças partem os vidros do mar a esta hora e põem divisas para se aproximarem do palácio. Deixam passar a sua vez nas rondas noturnas e contam pelos dedos os signos de que não terão que desfazer-se. O dia é defeituoso e dedica-se a reanimar mais os sonos do que as coragens. Dia de aproximação que não se ergueu mais alto do que um vestido de mulher, daqueles que estão à espreita nos grandes violinos da natureza. Dia audacioso e altivo que não tem que contar com a indulgência da terra, e que acabará por atar o molho de estrelas como as outras quando as criancinhas voltarem, de olho a tiracolo, pelos caminhos do acaso. Tornaremos a falar deste dia entre alto e baixo nos pátios reais, nas tipografias. Tornaremos a falar sobre ele para nos calarmos sobre ele.
Publicado por bigsainete em 04:43 PM
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junho 28, 2005 |
A MORAL DETERMINANTE
Anti-estudantes azuis de encontro ao muro de ovos escalfados cometeram vários crimes (violentos) sem autorização do respectivo Ministério. Os polícias bateram-lhes com guarda costas nas cabeças-matracas e morreram (1) passados dias.
Depois de terem passado alguns dias a morrer, os polícias desdobraram-se em católicos estudantes que desta vez atacaram o céu escarlate de beijos quentes, com perguntas estúpidas e aparentemente grelhadas (sem azeite). Também desta vez NHosso Senhor não gostou e matraqueou-os com peidos questionáveis sem contudo indicar ao anjo-macaco possíveis saídas desses problemas sem fundo. Uma delas era indubitavelmente a janela do quarto-de-banho-foguete, destacável do céu ao mais pequeno alarme.
Por isso o macaco fica agora a saber: mergulha nos vidros aranhados, puxa o selfclismo e parte contente para férias inesquecíveis (2).
É nesta altura que Deus já farto se revolta juntamente com alguns camaradas (entre os quais Demónios e S. José) e toma as nuvens, tranquilizando-as com super CDDTSS, mas trai-se a si mesmo: mergulha de uma aranha (céus!... outra vez...) numa rua lamacenta que logo muda o nome para "Rua do Milagre" (3), não sem que antes rogue uma praga angustiosa a todos os mini-computadores.
Ainda hoje se diz que essa minipraga ataca por vezes os computadores, estragando-os; mas é mentira, não devemos acreditar nas pragas, especialmente se são pequeninas. Além disso os computadores são intragáveis.
Quanto aos católicos-estudantes certamente que também não sobreviveram aos peidos questionáveis: já morreram há muitos meses e é provável que se transformem em anjos para curtirem uma qualquer vida macacal.
(1) - À pergunta "quem morreu?" responderei sempre "Ninguém!" já que nã quero tornar o texto demasiado confuso.
(2) - Para os mais ignorantes, tenho o maior prazer em informar que o Anjo-macaco possuía um mini-computador "Takes care of my wife" que jamais esquecia: toturante, não é?
(3) - O único milagre verdadeiramente à altura de Deus é o seu suicídio.
Publicado por bigsainete em 05:44 PM
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junho 29, 2005 |
REGOZIJO
Estou sentado; desdobro-me em vários eu: lá muito longe, imagino-me, atravesso a rua visto de cima, em casa a minha mão escreve o que lhe dito; o meu corpo sentido de fora; há dois dias baloiço os pés sobre o abismo do meu estômago, as barbatanas agitam-se e vou entrar na gruta submarina da minha infância, quartzo-me, brilho pesadamente perante aqueles olhos castanhos que hei-de ter; o túnel vertical rasga-se através das entranhas da colina. A rua é muito estreita, hoje; os carros são grandes monstros metálicos que invadem os passeios, me seguem escadas acima. Fecho a porta num suspiro de alívio. Escrevo, dos dedos saem grandes abóboras que contêm aldeias costeiras e barcos enormes pontiagudos com mísseis ou fósforos de baunilha. Estou só. Sento-me na garrafa a meu lado. Dois braços que se movem: um através da parede em busca da mão luminosa que o espera atrás de si, outro que lhe arranha o gesso da superfície intransponível a separar o bem e mal. Os deslumbrantes pensamentos das realidades...
Arco-íris que vêm como cavalos loucos; a magia nossa de cada dia nesta cidade; amores tibetanos da juventude eterna; os arcos dos violinos, os bosques difusos; as laranjas irradiantes, a língua, a pele a parede a espuma escorrendo da boca dúvida, bolor, cavalo recém-castrado discusão de autocarro, ilusão de força o sangue da carne rasgada a fúria de ser furioso.
Publicado por bigsainete em 05:17 PM
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junho 30, 2005 |
À PRIORI
E que esforço!
Os padeiros carregam as marmitas ao longo do cruzamento silencioso de Cristo na Santa Cruz Vermelha, miséria de céu escondendo a possibilidade última de ser e ficar sentado. Sim, é evidente que construímos tudo em bases multifacetadas: desta vez são os carniceiros nigromantes perdendo o tino na mais alta torre do castelo. "Sábado! Meu Príncipe Valente! Fiquei assim preso a facilidades comerciadas na mercearia do Intermediário Armando, armandista convicto, mas com tonalidades de verde-gato-apanhado-na-teia-cantora-que-fazia-asneiras. Por isso saquei do missal vizando o vizinho das casas perdidas nas ruas lentas, e merda para as manhãs ortorrômbicas no naco ideológico.
Assim é que é.
Publicado por bigsainete em 03:30 PM
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GEOMETRIA
Toda a concepção quadrangular, esférica, circular, ou mesmo a transformação em espiral do Homem, são, e serão,sempre, uma visão parcial do domínio natural escavado e repudiado continuamente, pelo próprio Homem, no seu avanço progressivo que se encaminha para a total compreensão poética do cosmos.
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PUEMDIM «SOCYAL» Embalagem familiar-5 pontos
(sob licença da Holly Standard Inc.-NYC-NY-USA)
Ingredientes
Adjectifos: causídica-claras-faceiro-gárrulos
Advérbios: jamais-nunca-sempremente
Neologismos: borra-botículas-infermento
Sinais de pontuação: ()-!!!-...
Verbos: chinclar-ninar-perigar
Preparação
Dissolva o conteúdo numa forma rectangular branca, junte-lhe as claras batidas em castelo no ar, deixe mijotar.
Consumo
Engole-se frio, após o café e os licores, à luz de velas e charutos.
Os donos de casa onde a poesia passa parecem menos burgueses, as suas tertúlias são mais «SOCYAL» e veneradas.
Coleccione as tarjas onde o número de pontos aparece a fim de as trocar por obras-primas reproduzidas.
GRAÇAS ÀS SOBREMESAS «SOCYAL» A DONA EUGÉNIA E O SR. EUGÉNIO SÃO GENIAIS!!!
Publicado por bigsainete em 04:56 PM
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SUPERAÇÃO DIALÉCTICA CONSCIENTE-INCONSCIENTE CHAMEM-LHE O QUE QUISEREM
"Perscutar os mundos desconhecidos, a imaginaçao supera o superego, o inconsciente revela a sua pujança e o poeta escreve-a; já não se trata de sublimação das tendências ou tranferência, de catarse, de recalcamentos, mas sim de utilizar os poderes mentais, consciencializar o mundo inconsciente, liberto da lógica aristotélica, um mundo onde estão a teoria da relatividade, a física quântica, a telepatia, onde a natureza humana se (re)conhece e onde se vislumbra o imenso clarão da substância maravilhosa do cosmos, onde tudo é nada, e nada é tudo, simultâneamente.
Magia, viagem, amor, luz, trevas, sempre mais universos novos depois de buracos negros, vários "estar", vários seres, todos difrentes e contudo todos iguais, maravilhas incompreensíveis à razão comum, que se sentem sem ser necessário explicá-las porque as conhecemos directamente tal como a abelha voa e fabrica mel do pólén das flores que crescem da terra que gira em torno do sol e em torno de si própria; tal como a nossa vida ou a nossa morte."
Publicado por bigsainete em 05:12 PM
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julho 08, 2005 |
EVA
No silêncio da noite do quarto eu beijei-a então, vencendo um pouco a repugância pelo hálito bafiento. Das axilas, das verilhas, das roupas dela saía um cheiro a suor - do trabalho ou da febre? - um cheiro a carne podre. Mas que alegria ter ali ao pé, mexendo entre entre tanta coisa parada e silenciosa - aquele bicho suado e trémulo (ela termia toda), humilde mas provocante, soluçando baixinho, rindo quando a cocegava, esquivando-se a um abraço para melhor se entregar no seguinte, ajeitando o corpo, quando julgava fugir, para uma posição mais abandonada e mais aqui-me-tens. Finquei-lhe a mão no meu sexo e ensineia a mexer-lhe e quis retribuir a sua carícia procurando no antro das coxas, mesmo por cima das calças, o calor molhado e cheiroso que ela tinha para me dar. Ela gemia: "Isso não, Zé!aí não, Zé!". O canapé rangia. Disse-lhe: "Anda para a cama". "Não, Zé! isso não, Zé!". Ouvimos de súbito, com toda a certeza, as vozes das visitas na sala. Ficámos quietos, num abraço muito apertado. Depois, as mãos continuaram o que estavam a fazer. Ela fechou as pernas com força, tinha a minha mão encravada pouco acima dos joelhos, agarrava-a por cima da saia, enquanto nos beijávamos, beliscava nas mamas e no lombo, na polpa das nádegas, torturava-a, endiabrando-a e a mim com ela , todo o corpo: "Ai se vem a senhora...", recalcitrou ainda. E numa grande confusão de promessas e súplicas, lembrou a terra dela, Montachique, os pinhais, as matas da chamboeira junto ao rio, onde se podia estar à vontade, que no Verão deixava fazer tudo o que eu quisesse, mas ali, não "a senhora" "podem-nos ver" "podem ouvir" que nas férias do menino, em casa dela, sim, ninguém havia de saber, "aqui, não, aqui, não!". Tanto medo contagiou-me ( eu era muito novo ainda para saber que os gritos das raparigas antes da cópula são um artifício mais com que elas procuram excitar o macho ). Tive medo, confesso. Medo da grande casa deserta, medo do frio, medo da solidão em que voltamos a ficar depois do minuto do amor. Medo dos mortos que me olhavam nas paredes. Medo do medo de tudo. Eu era ainda tão novo, ainda!
Publicado por bigsainete em 03:43 PM
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UM MUNDO DE COISAS BOAS
POR TRÁS DA TAMPINHA O.b. UM MUNDO DE COISAS BOAS
Era uma caixinha encantadora com um desenhinho muito sóbrio na tampa. Um desenho daqueles onde se pode ver tudo e sei lá mais o quê. Eu gostava muito da caixinha, era muito pequenina, impossível enchê-la de nenúfares, quinquilharias, de coveiros, cerzideiras, ou de escamudos.
Era demasiado pequena. Era demasiado.
Para além de tudo a caixinha tinha uma coisa que me intrigava muito: à tarde era de um azul-puto lindíssimo fazendo lembrar a côr do avião do pároco da minha aldeia, lá para os lados de Vila Feliz, como tudo, aliás contudo, à noite quando a ia visitar vestia um púrpura carregado lembrando vagamente a côr do infinito quando mestruado. Nunca percebi bem este fenómeno apesar de ter nas minhas amizades pessoas entendidas, mas também já é tempo de eu deixar de querer perceber sempre tudo.
A caixinha tinha, contudo, duas coisas que me desagradavam deveras: o preço e as companhias. Imaginem que foram pôr ao lado da minha querida caixinha um inestético búzio de barro que me irritava solenemente, não por ser de barro mas por ser búzio. É que os búzios fazem-me lembrar alguns dos meus amigos. Ou não têm nada lá dentro ou têm sempre a mesma coisa. Nunca encontrei nenhum búzio com uma fatia de ananás lá dentro. Também não admira é que eu sou da base.
Eu estava louco por ela. E suponho que ela por mim. Pelo menos sempre que lá ía visitar saudava-me com um meigo abrir-de-tampa. Eu nunca lhe telefonava porque a mãe do Bell ainda era pequenina. Não, não, agora me lembro, era porque tinha que fosse a caixa-mãe a atender.
Mal podia, lá estava eu embasbacado em frente ao bazar, olhando a caixinha fixamente, completamente indifrente ao pó levantado pelos bois e o mau hálito dos respectivos carros, e às vezes descontrolava-me, sim, porque uma pedra não é de homem. Um dia um senhor com calças passou por mim e até me disse: " Ó homem, não vê que é porcaria estar a lavar a montra com a língua?! Claro que depois arranjam as doenças". É médico, concluí. Soube dois triciclos mais tarde de que me enganara redondamente, tratava-se de um mamute ( dos tais ) que andava fugido à polícia.
Apenas um obstáculo me separava agora da caixinha: o preço. Bernardino, um amigo meu de longa data, era da opinião que não era o preço que me separava dela mas sim o vidro da montra. Bernardino lê muito Zé Pedro, mas como não sou cabeludo nem cabeludo resolvi ganhar a caixinha honestamente com o suor dos meus pés, (quatro na altura). (trabalhei) durante oito infindáveis bacalhaus (como sabem, cada bacalhau tem trita triciclos à excepção dos bacalhaus-bissextos), no fim dos quais tinha 3-três-3 (certezas: a primeira era que tinha sido vítima de exploração capitalista ("LÁ TINHA DE VIR O ESTUPOR DO RAPAZ COM A MERDA DA POLÍTICA) a segunda era que tinha sido vítima de exploração capitalista (COM A MERDA DA POLÍTICA LÁ TINHA QUE VIR O ESTUPOR DO RAPAZ) e a terceira (sem dúvida a mais importante): tinha finalmente dinheiro para comprar a minha querida caixinha.
"Já a terei hoje em casa" exclamei triunfante. Zeus não me respondeu. Notei que se engasgara com uma espinha da ambrósia. "e como vão ficar invejosos alguns dos meus amigos. Pobres búzios. Só arranjam caixinhas sem tampa, ou tampas sem", concluí finalmente.
Mas qual não foi o meu espanto, quando cheguei ao bazar para comprar a caixinha ela não estava lá. "deve ter ido fazer chixi" pensei, mas lembrei-me imediatamente que esta hipótese era impossível. é que a minha caixinha era social-agnóstica, entrei pela saída e fui então informado de que fora vendida ao Marquês Sottomayor que a ofereceu ao piriquito da marqueza com quem se relacionava, às escondidas da marqueza, está claro.
Oh pobre de mim, estava destroçado, derrotado, "a partir de agora a vida não terá mais sentido para mim", "sim caixinha porque eu amava-te, tu eras a razão da minha existência".
(comentário: APOSTO QUE DIZES ISSO A TODAS AS CAIXINHAS.
"E tu caixinha? Pobre caixinha! Como deves sofrer! Como a vida vai ser dura para ti!
"Sim porque eu não acredito que me possas ter trocado pelo parvalhão do piriquito da marqueza, eu valho vinte piriquitos daqueles, eu valho cem sacos de alpista".
Num derradeiro esforço pedi para me embrulharem o antipático búzio de barro, companheiro fiel da minha querida caixinha. Ofereci-o depois ao meu amigo Bernardino não sem antes ter tirado a etiqueta e uma boa fatia de ananás que encontrei lá dentro, sem açúcar, nem por isso deixei de ser da base.
USAR o.b. É DAR DE COMER A UM MILHÃO DE PORTUGUESES
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------------INSTRUÇÕES DE USO--------------------------------------------------------------------
FORMA CORRECTA DE USAR o.b.
Intruduzir o tampão o mais profundopossível (pelo menos até metade do dedo indicador)
numa posição oblíqua até acima. Deve descontrair-se. O cordão fica de fora para se poder extrair o tampão fácilmente. (ver figura)
FORMA INCORRECTA
Se "sentir" o tampão, quer dizer que foi introduzido insuficientemente. Neste caso, deve introduzir-se um pouco mais. (ver figura)
Publicado por bigsainete em 05:53 PM
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julho 12, 2005 |
SÓ A IMAGINAÇÃO TRANSFORMA. SÓ A IMAGINAÇÃO TRANSTORNA.
É imaginação o livre exercício do espírito que, servindo-se de um ou mais aspectos do "real", passa lenta ou rápidamente ao extremo limite deste para alcançar, pouco importa em que margens, o objecto real de um irreal conquistado no espírito. Acelerar este processo levando-o a um ponto em que se torne impossível falar de real e irreal (negação da negação anterior), produzir um oblecto onde tudo, simultâneamente, tem as propriadades da verdade e de erro, da razão e da loucura, do que foi encontrado e do que foi perdido, é transformar a realidade depois de a haver transformado - é fixar, violentando a realidade "presente", um novo real poético (uno). Esse real poético dá-o o surrealismo, reunindo, até hoje insuperávelmente, Apolo e Dionisos, Vénus Urânia e Vénus Anadiómena, Ocultismo e Magia.
Para nós, que estamos longe de requerer o exculsivo da constatação, toda a imaginação é actuação do mundo todo o acto está por si próprio encontrado e perdido, intensamente desejado e intensamente temido. A acção surrealista tende constantemente, como no acto amoroso, a fundir num só total delirante, "expolsivo-fixo", "solene-circunstancial", todas as presenças, ligando estritamente a coisa a possuir e os meios de possuí-la numa viagem que só se termina quando ardeu por completo não apenas o carvão que movia a locomotiva mas a locomotiva, a estação de chegada, os rails e os passageiros.
(Mário Cesariny, 1948)
Publicado por bigsainete em 04:01 PM
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TULI CREME
A coisa passou-se num ponto de hábitos Suiços e etiqueta. O Doutor escreveu no quadro os dados do problema:
"Quando um pobre nos quer lamber as botas, devemos ou não untá-las previamente?
Em caso afirmativo, justifique a resposta".
Como eu estava sentado ao lado do melhor aluno, decidi aproveitar esse acaso para lhe prescrutar as qualidades racionais: fingindo escrever, olhava de soslaio o ponto dele. Não tardei a ficar complectamente absorvido pelo que aquele fedelho magro ia transportando dos miolos para o papel. Lembro-me perfeitamente;
3.11 - Robustecer demasiadamente o pobre;
3.1.2 - Atrair um número excessivo de pobres à lambedela.
3.2 - A consequência 3.1.1 é de evitar, porque um pobre muito robusto decide-se a deixar de ser pobre, o que é um mal pela razão apontada em 2.3
A consequência 3.1.2 também é de evitar, pelo mesmo motivo e ainda porque, quando o número de pobres lambedores aumenta muito, a paciência do rico lambido diminui bastante.
3.3 - O produto deve, pois, ser moderadamente salubre, até porque a moderação é a principal qualidade a exigir a um pobre.
Publicado por bigsainete em 04:20 PM
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julho 14, 2005 |
TODA A ESCRITA É PORCARIA
Porcas as pessoas que saem do indeciso para tentar definir o que quer que seja do que se passa no seu pensamento.
É porca toda a gente literária, em especial a deste tempo.
São porcos todos os que têm pontos de referência no espírito, quero com isto dizer num dos lados da cabeça em zonas localizadas do cérebro, todos os que são mestres da sua língua, todos os que acham um sentido nas palavras, todos os que acreditam nas altitudes da alma, e nas correntes do pensamento, todos os que são espírito da época, e deram nome a essas correntes de pensamento, penso nas suas tarefas precisas e no ranger de autómato que lhe dispersa o espírito aos quatro ventos.
Os que acham sentido em certas palavras, e certas maneiras de ser, os que afectam à perfeição boas maneiras, os que atribuem classes aos sentimentos e discutem em qualquer degrau das suas hilariantes classificações, os que aindam acreditam em «termos», os que removem ideologias que fizeram época, os que têm mulheres de muito boas e as próprias mulheres de muito boas falas que também falam das correntes da época, os que ainda acreditam numa orientação do espírito, os que seguem vias, agitam nomes, fazem as páginas dos livros chiar, esses são os mais porcos.
Rapaz! Como és gratuito!
Não estou a pensar em críticos barbudos.
E já disse: nem obras, nem língua, nem palavra, nem espírito, nada.
Nada além de um belo Pesa-Nervos.
Uma espécie de estação incompreensivel, muito hirta no espírito, ao centro de tudo.
E não conteis que dê um nome a esse tudo, vos diga em quantas partes se divide, qual o seu peso, que eu ande, desate a discutir sobre esse tudo e a discutir me perca e desse modo comece, sem saber, a pensar,-e ele se aclare, torne vivo, se enfeite profusamente de palavras todas elas luzidias de sentido, todas diferentes e bem capazes de tazer que atitude for ao mais claro dia, que matriz de muito sensível e penetrante pensamento.
Ah! esses estados a que nunca damos nome, essas situações eminentes de alma, ah! esses intervalos de espírito, ah! esses minúsculos rasgões que são o pão quatidiano das minhas horas, ah! essa multidão formigante de dados, sirvo-me sempre das mesmas palavras e na verdade não tenho de quem agite muito o pensamento, mas na realidade agito-o mais do que vós, barbas-de-burro, porcos pertinentes, mestres do verbo falso, tira-retratos, folhetinstas, rés-do-chão, ervagistas, entomologistas, chagas da minha língua.
Já disse que não tenho mais língua e não é razão para fazerdes insistências, para vos obstinarem na língua.
Vamos lá, que hei-de ser compreendido dentro de uns anos por aqueles que hoje fazem o mesmo que vós fazeis. Serão conhecidos os meus geysers, vistos os meus espelhos, conhecida a forma de tornar desnaturados os meus venenos, traído o meu jogo de almas.
Nessa altura já terão caído à cal os meus cabelos, todas as minhas veias mentais, estará entendido o meu bestiário e a minha mística transformada num chapéu. Nessa altura ver-se-á fumegar a junção das pedras e hão-de cristalizar-se em glossários os ramos arborescentes de olhos mentais, nessa altura hão-de ver-se cair aerólitos de pedra, nessa altura hão-de ver-se cordas, nessa altura compreender-se-á a geometria sem espaços e há-de apreender-se o que é isso da configuração do espírito e como eu perdi o espírito
Nessa altura compreender-se-á porque razão o meu espírito lá não encontra, ver-se-á todas as línguas secarem, ressequirem-se todos os espíritos, encarquilharem-se todas as línguas, achatar-se o rosto humano, murchar como que aspirado por ventosas dessecantes, manter-se-á a fultuar no ar essa membrana lubrificante, lubrificante e cástica, essa membrana de espessura dupla e múltiplos degraus com uma infinidade de gretas, essa membrana melancólita e vidrosa porém tão sensível e tão pertinente, também, tão capaz de multiplicar-se, desdobrar-se, revirar-se na sua cintilação de gratas de sentido, estupefacientes, irrigações penetrantes e venenosas.
Nessa altura tudo isto há-de achar-se bom, e não será preciso eu voltar a falar.
Publicado por bigsainete em 03:53 PM
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julho 25, 2005 |
SURREALISMO...
"A linguagem foi dada ao homem para ele fazer dela um uso surrealista"
André Breton
"A morte dos séculos projectando uma sombra muito longa debaixo da água do sonho"
"Liquidar a arte é o que me parece mais urgente"
"Não há nada dentro da arte"
AS SENHORAS PODEM AINDA ESTA ESTAÇÃO ADQUIRIR NO CELEIRO AS CÉLEBRES COMPOTAS CREVEL E OS INCOMPARÁVEIS COMPRESSORES PICON.
"Não leiam nada, não escrevam nada, não publiquem nada"
"A sorte de Vaché foi nada ter produzido"
O mesmo não se poderá diser de nós...
SURREALISMO...
(...) escrita automática. Imaginação. Desenlace. Premeditação do estupro. Surreal é a mancha amarela que se transforma num prato de lentilhas a correr pela rua fora perseguido por um polícia ávido como um monstro impessoal como um porco; (...)
Publicado por bigsainete em 03:59 PM
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RACIONALMENTE
O EXÉRCITO É O ESPELHO DA NAÇÃO
NEM SÓ DE MERDA VIVE O HOMEM
"AINDA NÃO"
Basta de bêbados!
Basta de aeroplanos!
Basta de vigor!
Basta de vias urinárias!
Basta de enigmas!
"A anti-arte pela anti-arte"
E caro leitor:
NÃO DESESPERE!
"Pois tem no vampiro um amigo, embora pense o contrário. Contando com o ácaro sarcoto que provoca a sarna, terá ao todo dois amigos"...
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PUB
Depile a sua sógra com cêra, o que em breve fará com que o seu bigode pergunte: " Porque é que puseram vacalhau-desfiado no labatório?"
Publicado por bigsainete em 04:08 PM
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julho 27, 2005 |
EXPANSÃO
"Agrada-me profundamente saber que estou num ponto do Universo que necessita ser esticado para o lado de fora, quero dizer: para a minha frente. Se rebentar é a minha mais profunda aspiração que foi satisfeita!"
Publicado por bigsainete em 03:17 PM
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VEGANINE
(...) O primeiro espírita era um grande coxo de olhos fitos e sem pálpebras comendo permanentemente azeitonas e cuspindo caroços para distâncias incalculáveis. Era de resto sujeito a vertigens e costumava aconchegar-se cuidadosamente aos muros para o seu acto habitual. O segundo era uma pulga do mar omnipotente e carnívora, que apreciava esconder-se numa nesga do retrato do dono da casa. Este, o mais velho, tinha cosido o braço direito na balbúrdia das dobras da túnica verde que usava para simplificar uma nudez exaustiva e porca. Havia também uma rapariga e um homem magro vestido de preto que passava as mãos sobre um osso muito branco e limpo colocado num estojo de veludo à sua frente.(...)
Publicado por bigsainete em 03:24 PM
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julho 28, 2005 |
AO TEJO
Águas!
quando tomareis a
inclinação de
correr para
cima?
Publicado por bigsainete em 05:27 PM
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CERTOS OUTROS SINAIS
É uma história bem conhecida a que eu conto, é um poema célebre o que releio: estou encostado a uma parede com orelhas verdejantes e lábios calcinados.
Paul Éluard
Um pouco para a esquerda, no meu firmamento adivinhado, vejo-mas decerto não passa de um vapor de sangue e assassínio-o brilhante despolido das perturbações da liberdade.
Arogon
Mal tinha invocado o mármore-almirante, este virou-se sobre os calcanhares como um cavalo que se espanta diante da estrela-polar e apontou-me no plano do seu bicorne uma região onde eu devia pssar a vida.
Roger Vitrac
O urso das cavernas e o seu companheiro burro, pastelão folhado e as suas folhas ao vento, o grande Chanceler com a sua chancela, o espanta-pardais e o pardal do compadre, a proveta e o seu filho agulha, o carniceiro e o seu irmão carnaval, o varredor com o seu monóculo, o Mississipi e o seu cãozinho, coral e a bilha de leite, o milagre do seu Deus não têm mais que desaparecer da superfície do mar.
Max Morise
O dia desdobrou-se como uma toalha branca.
Reverdi
Não queremos esquecer nesta breve reportagem a figura incompreendida do catedrático mendigo comendo vorazmente dulcíssimas canetas esferográficas.
O Cadáver Esquesito
CERTOS OUTROS SINAIS a conquista do mundo fácil, a aventura mundana, a suspeição, o terror, a angústia, perseguições, a troca de manequins e ainda: CERTOS OUTROS SINAIS.
Publicado por bigsainete em 05:48 PM
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CONCEITOS MORAIS
-Um velho não diz: Amo-te; diz amai-me.
-Um velho já não tem vícios, são os vícios que o têm.
-Ninguém sente paixão pelo chá: mas não se pode deixar de bebê-lo. Certas mulheres são como o chá.
-A quinquagécima noite de amor! Vejo-me obrigado a reconduzir-te à casa de onde vieste, és demasiado exigente.
Publicado por bigsainete em 09:11 PM
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julho 29, 2005 |
DEGENERESCÊNCIA SUPERIOR
Sobe o balão, que é brilhante e tem uma pinta ainda mais brilhante. Nem o Sol oblíquo que lança um relâmpago como um monstro mau lança um feitiço, nem a gritaria da multidão, nada há que o impeça de subir! Não! ele e o céu são uma e a mesma alma: para ele só, se abre o céu. Mas ó balão, cautela! na tua barquinha, infeliz balão, movem-se sombras! os aeronautas estão bêbados!
Publicado por bigsainete em 10:43 PM
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SILÊNCIO NA NATUREZA
Quando, por entre as arborizadas colinas do Finisterra, íamos, eu e o meu cão, passear e ver os pássaros, «Xichas» divertia-se, pelo caminho, a fazer oitos com os meus passos; e quanto mais rápido eu caminhava, mais prazenteiro ele parecia, ficando doido de alegria se eu desatava a correr. Era um «Epenhol breton», com uma malha castanha na orelha esquerda e outra no rabo.
Publicado por bigsainete em 11:54 PM
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agosto 09, 2005 |
O CHAPÉU DE PALHA
No sítio em que Argel faz lembrar Constantinopla, as dragonas de oiro não passaram de ramos de acácia ou reciprocamente. A moda é cachos de uva em celulóide, as senhoras penduram-nos à laia de jóias por toda a parte. Um cavalo, depois de ter comido os brincos de uma das minhas namoradas, morreu envenenado, por o carmim do seu focinho, junto com a fucsina do chá de parreira, dar um veneno mortal.
Publicado por bigsainete em 10:10 AM
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CONSOLAÇÃO-DESCONSOLAÇÃO
Declaro-me mundial, ovíparo, girafa, alterado, sinófobo e hemisférico. Dessedento-me nas nascentes da atmosfera que ri concentricamente e estreleja com a minha incerteza.
Para rolar sobre o azul do céu de cabeça para baixo há cadeiras de rodas a motor.
O arcanjo fulminado só teve tempo de desapertar a gravata, dir-se-ia que ainda rezava.
O pavimento de mosaico simula relevo para me fazer perder toda a estabilidade. Ó maldade dos arquitectos!
Estás enganado, meu bom anjo, porquê essas palavras de consolação: eu chorava de alegria.
O fumo, cujas volutas se preseguem sobre a tapeçaria de seda azul sulcada de rosas de veludo grená, esse fumo é o gato que vai a passar.
É quase madrugada: ladra um cão, os anjos desatam a cochichar.
Sois, montanhas, como uma espumante sopa de leite debaixo do aeróstato, e de lá não tarda muito que saia, como um gigantesco copo de dados, esse paz d'alma do globo, fronte do Pai Dupla Esfera.
Mas que sedosos bivalves, os daquela tapeçaria que nós vimos! Eram como penas de pavão no sítio em que formam o ovo, mas tudo isso fosforescente, no diamante do seu branco marfim, além de o violeta ser mais esmaecido.
As suas flores são parecidas com as do miosótis; e estão dispostas de modo a fazerem supor que o arbusto é um palhaço que com um pé recuado, mantém os dois braços em candelabro.
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O COPO DE DADOS Max Jacob
Publicado por bigsainete em 10:17 AM
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POEMA
O eléctrico
em que me sento
afunda-se
no tunel escuro
da solidão
Publicado por bigsainete em 03:32 PM
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agosto 10, 2005 |
A MORTE JÁ FOI
Uns julgaram que é possível pôr-se uma pedra sobre as coisas e outros julgarão que não é possível pôr-se uma pedra sobre as coisa e outros ainda julgarão que é possível e não é possível pôr-se uma pedra sobre as coisas.
Publicado por bigsainete em 11:52 AM
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TÁBUA da ESMERALDA
É verdade sem erro, certo, muito verdadeiro, o que está em cima é o que está em baixo e o que está em baixo é o que está em cima afim de que seja feito o milagre de uma só coisa.
HERMES TRIMEGISTA
Publicado por bigsainete em 03:17 PM
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SUPRA-REAL
É numa optica totalizadora que é necessário compreender o "supra-real", que, de modo nenhum, é o contrário do real, mas a reintrodução naquilo que habitualmente é considerado como real daquilo que era mantido à sua margem:o supra-real não é o sobbrenatural, princípio religioso transcendente. O supra-real é um princípio imanente. Não deixa reduzir ao irreal e não chamado real, porque o mostra sob um aspecto complectamente novo. Une nele, com efeito, todas as formas do real. Integra mesmo o que se chama com demasiada facilidade o irreal, porque o irreal é menos um elemento do imaginário, e o imaginário uma forma da existência humana".
Publicado por bigsainete em 03:33 PM
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agosto 11, 2005 |
DITADURA DO ESPÍRITO
Cá vai a "ditadura do espírito"!(Breton): "ela exerce-se já não apenas contra certas formas de arte, mas contra o absurdo do mundo," GRANDIOSOS SALDOS "contra os quadros da lógica e da razão, contra as estruturas sociais tornadas responsáveis do apocalipse, contra o monopólio indevidamente concedido aos criadores intlectuais, CONTRA A LÍNGUAGEM enfim, fonte primeira de todos os mal-entendidos".
Publicado por bigsainete em 04:49 PM
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agosto 12, 2005 |
O minúsculo é ENORME
O meu cavalo tropeçou nas semicolcheias! As notas salpicam de lama o céu verde da minha alma: o oitavo céu!
O minúsculo, é enorme! aquele que concebeu Napoleão como um insecto entre dois troncos de árvore, que lhe pintou um nariz a aguarela, um nariz basto grande, que figurou a sua corte com cores demasiado suaves, não será maior do que o próprio Napoleão, ó Ataman Prajapati!
O minúsculo é a nota!
O homem tráz consigo as fotografias dos seus antepassados, tal como Deus possuía Napoleão, ó Espinosa! Eu por mim, tenho por antepassados umas notas de harpa. Deus conceberá Santa-Helena e o mar entre dois ramos de árvore. O meu cavalo preto tem bons olhos, embora seja albino, mas tropeçou numas notas de harpa.
Publicado por bigsainete em 12:57 PM
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UM OVO
O azar fez com que se partisse um ovo no Paraíso terrestre. Adão, a partir daí, tentava quebrar os calhaus parecidos com ovos.
Não foi uma maçã o que Eva ofereceu a Adão. Foi uma chave. Essa chave encontrei-a eu: estava enferrujada, a pobre.
Publicado por bigsainete em 03:45 PM
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FOGO
Para fugirem ao incêndio, as árvores em fila arrastam os seus rebentos. Até os braços de desânimo lhes tombarem: e exprimentam a dor de serem árvores.
Publicado por bigsainete em 05:49 PM
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agosto 17, 2005 |
POEMA DA LUA
Por sobre a noite, há três cogumelos que são a lua. Tão de rompante quanto um cuco de um relógio canta, assim mudam eles de lugar todos os meses, à meia-noite. Há no jardim umas flores raras que são homenzinhos deitados, cem, ou os reflexos de um espelho. Há, no meu quarto sombrio, uma corveta luminosa que anda à roda, e depois duas... balões fosforecentes: são os reflexos de um espelho. Há na minha cabeça uma abelha que fala.
Publicado por bigsainete em 03:42 PM
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agosto 30, 2005 |
AS MINHAS TRÊS MARIAS
MARIA PRIMEIRA
MARIA SEGUNDA
MARIA TRECEIRA
Publicado por bigsainete em 11:44 PM
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